2 - Os Fenícios

Devido à escassez de descobertas arqueológicas que sejam capazes de precisar aspectos importantes da sociedade fenícia, este povo só foi conhecido a fundo a partir do que dele percebiam outros povos que vivam na mesma época. Isso se deve ao fato de que chegaram até nós apenas uma pequena parte de documentos produzidos por eles próprios. Até o século XIX, quando do surgimento da arqueologia, pouco se sabia dos Fenícios, e as informações provinham principalmente de relatos de Judeus, Gregos e Romanos, que diziam respeito às suas relações com o povo fenício.

Depois do advento da arqueologia, determinadas questões puderam ser aprofundadas. Porém, de todos os povos antigos, talvez seja o fenício aquele do qual se tem menos conhecimento. Apesar disso, e de acordo com Donald Harden em Os Fenícios*,

"o trabalho dos recentes eruditos e equipes de campo tem revelado uma visão geral suficientemente clara deste povo pequeno, mas extraordinariamente aventureiro, que impulsionou a história do Mundo e o desenvolvimento da civilização. Como exploradores, na Antigüidade, os Fenícios não tiveram concorrentes, como colonizadores poucos, salvo, talvez, os Gregos. Como comerciantes, procuravam e transformavam matérias-primas e produtos manufaturados através de todo o Mundo então conhecido. O seu valor como valentes combatentes foi demonstrado, não somente na longa e esgotante luta com Roma, mas também pela resistência que Tiro e Sídon opuseram aos Mesopotâmios e outros conquistadores (...). Mas todos estes feitos se esfumam perante a sua mais grandiosa e duradoura realização, o alfabeto [fonético]. É com este que eles vão influenciar mais forte e profundamente as subseqüentes civilizações da Antigüidade. Todas as línguas indo-européias e semitas (...) empregam o sistema inventado pelos Fenícios e que foi rapidamente adotado por muitas outras nações vizinhas, incluindo os Gregos". (HARDEN, 1968, p.18)

A faixa de terra ocupada pelos Fenícios - uma faixa estreita, é verdade - se prolongava, na costa do Levante (leste do Mar Mediterrâneo), desde Tartus até o sul do monte Carmelo. A distância costeira de norte a sul era de 40 a 50 léguas e a largura, de umas poucas léguas. Os primeiros habitantes dessa região, de acordo com o escritor libanês William Nimeh, foram os Cananitas e os Arameanos e da fusão das duas teria resultado os Fenícios. Os Fenícios representavam uma parcela do povo denominado, de forma geral, de cananita (ou cananeu), descendente de Sídon (fundador da cidade que leva seu nome), Arad (idem) e Jebus, todos filhos de Canaan. Os Jebuseanos, por sua vez, fundaram mais tarde as cidades de Byblos e Beryte (atual Beirute).

Existe grande controvérsia acerca da origem precisa dos Cananitas. Algumas teorias advogam que os mesmos teriam vindo da Arábia - das margens do Mar Vermelho - ou do golfo Pérsico, mas ainda assim não se pode afirmá-lo com certeza. Várias fontes levam a crer que, desde o quarto milênio a.C., eles já estavam profundamente miscigenados. Os Fenícios dificilmente podem ser diferenciados dos Cananitas, segundo Harden, até mais ou menos a última metade do segundo milênio a.C.

Os Fenícios ocupavam principalmente o litoral de Canaan. O expansionismo fenício provavelmente teve início em conseqüência de conquistas israelitas, comandadas por Josué, que separaram a região em três blocos distintos: a norte permaneceram os Fenícios; a região central ficou sob os auspícios dos Israelitas; o sul foi lar dos Filisteus, que habitavam as cidades de Gaza: Geth, Azet, Ascalão e Accarão. Nessa época, Sídon era a principal cidade fenícia e foram estabelecidas colônias de sidoneanos na Síria e na margem do rio Eufrates. Contudo, a expansão mais significativa se deu por via marítima, o que resultou no estabelecimento de diversas colônias em quase todo o litoral do Mediterrâneo.

A esse propósito, é necessário atentar para o desenvolvimento de diversas técnicas de navegação desenvolvidas pelos Fenícios, incluindo-se aí as noções de latitude e longitude (inventadas pelo sábio Marino, de Tiro). Eles foram os primeiros grandes viajantes do mundo, até onde se conhece. As causas para esta característica aventureira e expansionista são variadas e vão desde a composição geográfica da Fenícia - espremida entre o mar e as montanhas - até as sucessivas invasões perpetradas por diversos povos."Os Fenícios construíam barcos de 100 a 200 toneladas. (...) Nessas viagens pelo Mediterrâneo, fundaram importantes colônias: Cádiz, Cartago, Marselha, Malta e outras na Sardenha, na Córsega, na Sicília, na Gália" (BAHIANA, 1980, p.80). Não obstante, transpuseram o estreito de Gibraltar, alcançando a costa oeste da África, o Cabo da Boa Esperança e, acredita-se, deram a volta na África. Também contornaram a Europa, chegando até o Mar Báltico - diz-se que os Vikings copiaram a forma e os enfeites dos barcos fenícios.

Mesmo que um consenso esteja distante, algumas inscrições encontradas no Brasil parecem possuir origens fenícias. Também há um grande número de palavras indígenas de origem fenícia e hebraica, especialmente aquelas utilizadas para precisar localidades. Jacques Edde diz dos Fenícios:

"Intrépidos navegadores dotados de alto valor intelectual e alma aventurosa, os Fenícios foram os mais prodigiosos marinheiros da antigüidade. (...) Os Fenícios transformaram [o mar] num traço de união e inauguraram uma política (...) de trocas pacíficas, da colaboração universal, da solidariedade humana para avançar, num esforço comum, em direção ao aprimoramento moral, espiritual e material das condições de vida. A ação fenícia se fez sentir em toda parte, em todos os povos e em todos os continentes". (EDDE apud BAHIANA, 1980, p. 13)

Um outro feito ainda mais expressivo do povo fenício foi a invenção do primeiro alfabeto fonético, "do qual o exemplo mais antigo podem ser ainda as duas linhas do texto do túmulo de Ahiram" (HARDEN, 1968, p. 118). Estas duas linhas referidas datam, acredita-se, do século X a.C. e apresenta um alfabeto dotado de 22 consoantes relativas aos sons da língua, ao contrário dos hieróglifos egípcios. Este alfabeto foi ordenado de forma mais pragmática e estandardizado no século X a.C., sendo adotado posteriormente pelos Gregos, que melhoraram-no e introduziram algumas vogais. Em seguida, a escrita grega derivada da escrita fenícia foi utilizada na região onde atualmente se localiza a Itália, pelo etrusco e alguns outros dialetos.

A invenção do alfabeto fonético reflete o valor conferido, pelos Fenícios, à cultura e à educação. Gregos, romanos e outros povos aprenderam bastante com os Fenícios em diversas áreas. De acordo com Ildefonse Sarkis, no livro Eu Escolho o Líbano*, os Fenícios desenvolveram ou participaram do desenvolvimento nas seguintes áreas: alfabeto fonético, agricultura, navegação, arquitetura, poesia, pensamento filosófico, matemática, física, medicina, astronomia, jurisprudência, democracia, deuses e valores. Os Fenícios também desenvolveram bastante a escultura, o que pode ser comprovado pelas ruínas de suas construções e de seus monumentos funerários.

Sobre o aspecto religioso, cabe mencionar que os Fenícios eram politeístas. Eles tinham deuses tais como El, Baal, Moloch, Adonis etc. De fato, o povo libanês foi politeísta até o advento do Cristianismo.

Outro ponto a ser enfatizado a respeito dos Fenícios diz respeito a Cartago. A criação desta lendária cidade localizada nas proximidades da atual Túnis, na Tunísia, tem suas origens num imbróglio político ocorrido em Tiro. A nobreza da cidade havia decidido entregar a coroa pertencente ao rei Pigmalião ao sacerdote Sicharbaal, casado com a irmã do rei, Didon. O povo, no entanto, se posicionou em favor de Pigmalião e, restaurado seu poder, o rei deportou os responsáveis pelo problema, incluindo Didon e boa parte da nobreza, para a África. Lá, fundaram Cartago em 826 a.C. e, a partir daí, a cidade passou a ser o principal centro da irradiação da civilização fenícia na região mediterrânea. Tinha governo autônomo, dotado de Senado e Câmara de Deputados.

Finalmente, e no intuito de tornar clara ao leitor a importância dos Fenícios para o Líbano e para os libaneses, citar-se-á um trecho da excelente Evolution Historique du Liban*:

"À Fenícia nós devemos, em primeiríssimo lugar, a antigüidade da existência, como uma entidade bem determinada e distinta de todas as outras, no território do Líbano atual. Pois conquanto os Fenícios apareceram na cena do mundo antigo, eles se distinguiam claramente dos outros grupo cananeus e de diversas populações - Filisteus, Hebreus, Amoritas, Assírio-Caldeanos - que habitavam na Síria, na Palestina e na Mesopotâmia. Graças a isso, o Líbano moderno não é uma inovação. Graças também a isso, o que fomos convencidos a chamar de Síria natural nunca foi mais do que uma expressão geográfica. Para perceber toda a importância da existência de uma Fenícia independente na antigüidade, imaginemos o contrário do que ocorreu. Suponhamos que a terra libanesa tenha feito parte, nos tempos antigos, de outro país. Retiremos de nossa memória, por um momento, os trinta séculos de história fenícia, e poderemos compreender sem dúvida a opressão exercida contra nós por um argumento que nos atribui três milênios vazios. Mas, felizmente, os Fenícios existiram e o argumento histórico joga a favor do Líbano" (DAHDAH, 1964, p.52).


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